Futuro do pretérito: incerteza, hipótese, irrealidade.
Algumas vezes pensei na minha vida nesse tempo irreal, pensando no "Se"... E Se eu tivesse insistido mais, Se eu falasse mais, Se ...
Com quinze anos eu conheci o apanhador de sonhos, que me despertou um forte "Se". Ele me falou para seguir uma carreira promissora: modelo. Se eu emagresse, Se eu me cuidasse, Se eu fosse boa, ele me ajudaria. Eu emagreci, eu me cuidei e ele me ensinou o que sabia. Ele me ensinou a andar, a ter etiqueta em jantares sociais, a me acostumar com fotos e câmeras. Como naquelas histórinhas da lapidação feminina onde a menina encontra uma fada madrinha.
Tudo belo e maravilhoso, se não fosse por um problema. O apanhador de sonhos era muito ganancioso, ele tinha um termômetro em que media o interesse pessoal de cada menina e quanto maior o interesse maior o valor do cheque para aprender o que ele sabia. Depois dos cheques descontados, a menina era levada para a Fábrica das Ilusões onde aprendia a ser preparada para a Indústria da Efemeridade.
O apanhador de sonhos me ensinou parte do que sabia e a Fábrica de Ilusões complementava com outros ensinamentos. Depois de aprender tudo, eu ainda tinha que passar por um período de avaliação, onde o apanhador de sonhos e outros da área iriam me aprovar para a Indústria da Efemeridade.
A Fábrica de Sonhos era em São Paulo e minha casa na Baixada Santista. Eu tinha que subir a serra alguns dias para realizar o sonho de menina. Nos outros dias que eu ficava em casa. Eu abusava da comida. No auge da adolescência, sentindo muita fome, eu comia de tudo e exageradamente. Quando chegava os dias para eu subir para São Paulo, eu emagrecia. Sofria um efeito sanfona toda semana. Eu brincava com o meu corpo, cheguei a engordar e emagrecer cinco quilos em uma mesma semana. Isso se prolongou durante dois anos. Até que eu não agüentei mais. Antes era só a pressão para a carreira, depois começou a pressão para o vestibular. Com as duas pressões, eu explodi. O efeito sanfona não dava mais certo, eu só engordava.
Engordei, o apanhador de sonhos percebeu. Ele me deu uma semana para emagrecer. Eu não consegui. Não segui a carreira e não me achava bonita, pois não tinha mais o padrão de beleza que a Indútria da Efemeridade queria.
Eu lamentei essa desistência no passado e ficava pensando: e Se eu continuasse, e Se eu tivesse trabalhado mais, talvez estaria em Tóquio, New York , Paris, Cingapura...
No primeiro ano de faculdade, conheci um doutor chamado Augusto Cury que escreveu um livro interessantíssimo: Ditadura da beleza. Descobri nessa obra que os sintomas que eu sentia, a perfeição pelo corpo era algo que a maioria das mulheres do mundo sentem, independentes de serem modelos ou não. Foi confortante e ao mesmo tempo triste saber que outras garotas passaram pelos mesmos problemas que eu.
Um pouco antes de conhecer o livro de Augusto Cury, assisti a um video lindo chamado Filtro Solar, onde aprendi que as pessoas podem ser felizes sendo elas mesmas.
Hoje, sou mais feliz porque me aceito como sou. Ainda continuo vaidosa,como toda mulher, mas não com a obsessão de antes. Sou feliz também porque penso mais no presente e passei a agradecer por tudo o que tenho. Gosto muito da minha vida, e agradeço todos os dias pelo que conquistei até hoje e por todas as pessoas que me cercam e fazem do meu dia a dia o presente mais alegre e agradável que posso ter. Obrigada.
Um comentário:
Nossa Gabriella que interessante!
Não imagina como esse mundo funcionava...
Fico muito feliz por você escolhido se dedicar a você mesma!
Parabéns
Beijos
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